Mensagens

Entre a terra e o céu

Maria estava deitada sobre um monte de terra tentando abraçar o seu cão, ali sepultado. Foi assim que a mãe a encontrou, quando tudo ficava em silêncio era sinal de que ela estava ali. Aproximou-se devagar, como se ela pudesse magoar-se com o som dos seus passos, ela ultimamente gostava de ficar assim. Como mãe tinha a sensação de que ela ficava tentando sentir algum barulho do seu cão. Ajoelhou-se ao lado e sem fazer muito barulho. -O teu cão já não está ai, foi para o céu e de dia será uma nuvem e a noite irá, ser uma estrela- pela primeira vez sentiu a Maria, chorar sem gritar, era um choro profundo, lá do fundo do coração. A sua menina tinha apenas seis anos, estava deitada sobre o montinho de terra onde seu cão foi sepultado sem compreender bem o porque da morte... -Ele não ladrar, não lambe a minha cara, não sente a minha falta, como eu sinto dele- Com a sua voz saindo do coração, Maria limpou as lágrimas com a sua mãozinha. A mãe acariciou-lhe os cabelos e respondeu: -Apesar de …

A princesa e o criado

Era uma vez uma terra, lá longe… tão longe que não consigo imaginar. Nela vivia um rei, o rei dos sete reinos. Pois tinham sido sete os reinos conquistados por ele. Tinha uma linda filha, a Princesa bela, era assim chamada porque a fama da sua beleza ia longe. Muitos príncipes queriam casar com ela, mas seu coração esperava um príncipe encantado, um cavaleiro corajoso que a salvaria de um dragão. Passava os dias na sua torre, distribuindo beleza e esperando pelo seu príncipe encantado. Quando não estava lá, costumava conversar com Rodolfo. Era filho de um grande cavaleiro que tinha servido o rei, mas tinha nascido feio, torto, desajeitado e pouco servia para alguma coisa. Por piedade e amizade ao seu pai, o rei cuidou dele e deixou-o viver no estábulo em troca de alguns serviços domésticos, como cuidar dos cavalos e era ao pé dos cavalos que ele morava e dormia, num monte de palha misturado com estrume. Lá da sua torre, a Princesa costumava chama-lhe nomes, mas no fundo tinham-se tor…

O poema da rosa

Numa roseira havia uma rosa que se sentia menos bela, mas tinha o sonho de tal como uma rosa bela, de morrer por um amor, ser musa de um poema. Porém era sempre outra colhida e não ela, apesar de isso, sentia que o seu dia chegaria, um dia  iria ter o seu grande amor, o seu poema e iria ser colhida, murchar por um amor ou por um poema e espalhando assim seu perfume. Talvez guardassem as suas pétalas, nas folhas de um livro de poemas, cada vez que alguém o abrisse sentia que ela tinha sido ali deixada por um grande amor e o seu perfume, a sua alma ainda lá estaria. Todos os dias outra rosa era colhida e mais uma vez ela era esquecida, às vezes chorava de noite para ninguém ver, só os primeiros raios de sol, lhe revelava às lágrimas nas suas lindas pétalas. O sol, sempre carinhoso as limpava dizendo: Hoje é a tua vez! Mas nunca era, mais uma rosa era colhida em seu lugar e os dias iam passando, até restarem poucas… ela já não tinha aquela juventude, estava cansada, e a perder as cores. Só o seu pe…

Anjo

Tenho pensamentos estranhos, mesmo em cenários para muitos macabros. Estava a ouvir música e a pesquisar imagens só para ver e encontrei um anjo de mármore caído sobre um túmulo a chorar e aquilo me tocou de tal forma que pensei:

Quando morreres quero ser um anjo de mármore para guardar o teu túmulo

Poetas

um homem sem poetas, é um homem sem Deus. Não sabe orar as palavras do coração, não entende que o mundo é feito de amor e que o ódio é o esquecimento de um coração. Ter ou ser poeta, é dar poder do amor aos homens e não a Deuses, ou a um caso… porque amar-te, nunca foi o destino, foi algo que eu quis, não como alguém que quer ser bombeiro ou futebolista, foi a forma de vida que escolhi para viver e mesmo sem ser poeta, só ouço as palavras do coração, só vivo de amor

40 dias sem ti

Vivíamos numa casa, onde não importa a cidade e nem a rua, fica no nosso pequeno mundo e isso bastava para nós. Era o nosso pedaço de céu, onde todos os dias nos entregávamos um ao outro e nos amávamos, como se não houvesse vida mais para viver. Gostava de sentir as roupas dela no chão, sempre tiradas com a loucura do desejo e assim deixadas quando ela tinha de sair para o seu mundo real, ficava eu ali sentindo o seu perfume, o amor que ela me deixava. Muitas vezes quase me recusava a ver o meu mundo, era sempre tão triste sem ela. Gostava mais de esperar por ela na nossa casa, apesar dos avisos dela... sempre me queria misturado no meu mundo, não esperar, porque ela voltaria na noite seguinte. Como se eu pudesse caminhar nestas ruas sem ela... Hoje sai, estou sentado a porta de casa e já andei por ai, de noite, nas ruas desertas, com a minha mão direita quase abandonada a si mesma, levava um bilhete nela, onde se lia: “Volto daqui a 40 dias. Beijos. Lua”. Como poderia passar 40 dias s…

Porque este amor?

2005/10/24 O fim Tinha vindo enterrar o pai à terra onde nascera, cumprindo assim o seu desejo. Foi um dos seus últimos dois desejos, o outro estava agora a cumprir. Estava parado diante de uma casa estranha, onde vivia uma mulher que ele nunca vira, para entregar um envelope. Pelas informações que lhe deram era aqui que ela vivia. Aproximou-se, bateu suavemente à porta mesmo assim incomodando alguns cães. Uma menina de onze anos abriu a porta que surpresa olhou para ele como se fosse o carteiro. - A tua mãe está? – Perguntei-lhe. Ela abonou a cabeça que sim e correu chama-la. Logo apareceu uma mulher bonita, com um ar jovem e sorrindo, como perguntando o que desejava.   – Desculpe incomodar! A senhora chamasse Susana Andrade? Ela sorriu mais uma vez, e curiosa respondeu: Não, eu sou a Ana, minha mãe é que é a Susana. Ela vive comigo, está na sala a ver televisão. Como lhe custa andar é melhor entrar para falar com ela. - Desculpe, não quero incomodar! Venho do funeral do meu pai. …